segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Como Saber Se Uma Ação Está Cara ou Barata


Quando se trata de investimento em ações focado no longo prazo, o famoso Buy and Hold, existem duas correntes de pensamento: os que acham que o preço não importa e os que acham que o preço importa.

A primeira corrente prega que para nós, investidores individuais, não vale a pena se preocupar com o preço de uma ação, o foco deve ser integralmente nos fundamentos da empresa. A ideia é que se uma empresa for boa, e continuar boa, a melhor opção é ir aportado regularmente nela, sem se preocupar com o preço da ação pois, no longo prazo, a tendência é você estar sempre no lucro pois as compras nas baixas e altas vão se compensando.

A segunda corrente pensa mais ou menos parecido quanto a aportar em empresas que apresentem, e continuem apresentando, bons fundamentos porém há um elemento adicional: evitar aportar em empresas que, apesar de boas, estão com o valor da ação muito esticado, ou seja, estão muito caras. Adicionalmente, buscar empresas que estejam igualmente boas, porém com preço da ação atrativo, ou seja, estão baratas.

Eu respeito as duas correntes, porém me identifico mais com a segunda.

Mas afinal, como saber se uma ação está cara ou barata?

O leigo vai pensar inicialmente no valor absoluto da ação, então ele vai dizer que a OGXP3, cotada a R$ 1,71, está barata e que a ITUB3, cotada a R$ 30,00, está cara, porém sabemos que não funciona bem assim.

Uma ação é um pedaço de uma empresa, portanto o valor de uma ação vai depender basicamente de duas coisas: em quantos pedaços essa empresa está partida (quantidade de ações) e, principalmente, qual é o valor dessa empresa. Lembre-se que preço é o que você paga, valor é o que você leva.

Afinal, quem você acha que entrega mais valor, a OGX ou o Banco Itaú? A resposta é óbvia né, por isso faz todo sentido pagar mais caro pelas ações do Itaú, já que a probabilidade de a empresa continuar crescendo e/ou pagando dividendos é muito maior!

"Pode comprar que OGX está barata, menos de R$ 2,00"


Ok, mas como saber se a ação do Itaú está cara ou barata? É ai que está o X da questão!

A ciência que estuda isso é chamada de "valuation". Os especialistas em valuation utilizam modelo matemáticos para calcular o valor justo de uma ação. Se a ação estiver cotada abaixo do valor justo quer dizer que ele está descontada, e é uma boa opção de compra. Já se ela estiver cotada acima do valor justo, ele está muito esticada, devendo-se buscar outras opções de ações com maior margem de segurança.

Os métodos mais conhecidos de valuation são os feitos por fluxo de caixa descontado e por dividendos descontados, em que, basicamente, se estima um fluxo futuro de caixa ou dividendos e traz-se esses números a valor presente para compor o preço da ação. Falando assim parece simples mas são modelos avançados e que envolvem um elevado grau de subjetividade.

O método que eu mais gosto, e o mais simples, é o valuation comparativo por múltiplos. Um múltiplo é um indicador que compara o preço da ação com algum resultado relacionado à empresa. O múltiplo que eu mais gosto é o P/L que faz a relação entre o preço da ação e os lucros apresentados pela empresa. Basicamente o P/L diz em quantos anos eu vou recuperar meu investimento na empresa por meio da parte do lucro que eu "tenho direito".

Gosto de olhar o P/L histórico e comparar com empresas do mesmo setor a fim de identificar se a empresa que estou analisando está descontada ou esticada.

Logicamente que esse não é um método perfeito, ele pode apresentar algumas falhas, por exemplo: há empresas boas que embora operam com P/L alto, aparentemente caras, porém estão sempre crescendo mais e mais; há empresas com lucros não recorrentes que podem "mascarar" o P/L, empresas desacreditadas tendem a ter P/L baixo porém não necessariamente são oportunidades boas de compra, etc.

A verdade é que analisar uma ação unicamente pelos seus múltiplos, ou por qualquer outra forma de valuation, passa longe de ser garantia de sucesso. Uma boa análise envolve muitos outros critérios como ver se a empresa tem um histórico de lucros crescentes, ganho de market share, boa rentabilidade, endividamento controlado, boa gestão, geração de caixa, está inserida em um setor perene, tem uma diferencial competitivo, etc.

Fazer valuation, seja pelos métodos mais complexos ou pela análise de múltiplos, é um "plus" na análise, pode te ajudar a fazer melhores negócios ao comprar ações mais descontadas, porém não pode ser considerado, por si só, um critério suficiente de sucesso.

Abraços,

Senhor Ministro

9 comentários:

  1. Olá Sr. Ministro!

    Do nosso ponto de vista, além desses fatores, exitem muitos outros que influenciam o valor de um papel. Pensamos ser bem arriscado tomar esses fatores como ponto de apoio suficientes para decisão. Para quem é leigo uma análise fundamentalista já ajuda muito, mas no caso da técnica, imagino ser bem interessante ter sempre vivo na memória o seguinte pensamento: "resultados passados não são suficientes para afirmar que existirão ganhos futuros"! Ou seja, para apoiar-se no indicador PL precisamos adotar a ideia de que os lucros permaneçam constantes, o que é muito difícil prever e ou afirmar. Concordamos? Senão seria muito mais fácil! hehehe

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    Enfim, bem legal o seu post! Parabéns!
    Sou Poupador

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    1. E ai Poupador!

      De fato, o P/L é um olhar no retrovisor, ele se baseia em resultados passados, porém, como citei, ele é apenas um indicador a ser levado em conta para a tomada de decisão.

      Se eu acredito que uma empresa vai diminuir o seu lucro nos anos seguintes, o P/L perde valor e geralmente nesses casos o P/L é bem baixo pois o próprio mercado já penaliza essas empresas desacreditadas.

      Tome a Kroton como exemplo, invariavelmente a empresa vai ter queda nos lucros nos próximos trimestres em virtude da diminuição do FIES, e o mercado já precificou isso, tanto é que o P/L atual dela é bem baixo. Porém, eu acredito que a empresa vai se recuperar posteriormente, portanto é potencialmente uma boa oportunidade.

      Vou dar uma conferida lá no amigo secreto!

      Abraço!

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    2. Muito bom Ministro! Isso aí! TMJ!

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  2. Que site voce acompanha o preço das ações assim como P/L e tudo mais Ministro? Abraço

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    1. Fala Gari!

      Preço da ação eu acompanho pela corretora ou pelo google rs

      Já os fundamentos eu gosto muito da Plataforma Pense Rico, é gratuita e traz muitas informações importantes bem organizadas e com um visual bem interessante.

      Abraço!

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    2. Gari Advogado, ola!

      Gostaria de sugerir o https://www.fundamentus.com.br

      =)

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  3. Fala Ministro, ótima postagem.
    Eu uso a estratégia Buy&Hold, e sempre que decido abrir uma nova posição em renda variável, escolho cerca de 3 ou 4 empresas que já tenha analisado os indicadores e vejo qual delas está com preço barato em relação ao seu histórico. Ou seja, faço uma rápida leitura dos movimentos dos últimos dias, e decido sempre aportar na que estiver com "melhor desconto". Ou seja, sempre escolho ações de boas empresas (lucros consistentes e crescimento), mas como "segundo" filtro, procuro empresas com desconto.

    Grande abraço!
    Stark.
    www.acumuladorcompulsivo.com

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    1. Fala Stark, seu método me parece muito bom.

      Os fundamentos devem vir antes do preço, o foco sempre deve ser empresas com bons fundamentos! O preço importa, porém deve ser um dos últimos critérios a serem avaliados.

      Só faço uma observação em relação a essa questão de ver a movimentação do preço da ação nos últimos dias (ou meses). Quando eu comecei a investir em ações fazia mais ou menos isso de ver a variação da cotação e tentar estimar se a ação estaria descontada ou esticada. Por n motivos esse não é um método muito interessante.

      É preferível analisar o preço de uma ação pelos seus múltiplos, como P/L, P/VP e EV/EBITDA.

      Abraço!

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